domingo, 28 de setembro de 2008

Epistolário Micrófilo



Daqui não me espera o caracol perturbado nem qualquer redondel diário como serviço inacabado da língua, porque se assim fosse, inutilmente me arrastaria neste cascalho trabalhado aos confins da reestruturação duma parábola ensimesmada de hálito sempre tido como estranho, mas de certo fulcral condimento da especiaria que se torna esse buliçoso pão que os pulmões tentam mastigar.



Pudera ser riso acidental num grotesco espectro sem desarmar a poeira laminar da certeza esférica dos dias; ou talvez perder-me entre as páginas ácidas [essa língua primitiva fatiada a frio] cozidas por vermes pontiagudos numa terra residual que as mãos beijam.

O fruto-chorão gatinha na pétala do som e ainda não se quer plausível o escrutínio enervante da sirene a julgar-se polpa tenra para o desastre. o cu no chão – epitáfio carnívoro em prole da tábua morta estancada nos olhos; que é bom saber o lugar dos objectos boiantes com o simples manejo dos apêndices dum escaravelho envenenado na lateral e operar maravilhas nessa mesa de quitina.



Uma espécie de dor; uma paleta de frequências a encenar qualquer devassidão arco-íris, ou simples fúria sensitiva a ressoar na pele; viva, aí, nesse bulir de mão regada de dedos, diria que ela ocorre num breve lusco-fusco sibilino a conter recusado manancial e me transporta ao poder absoluto de deslizar dentro do translúcido peixe por escamar como diabrura em súbita esquina.



Antes torturar árvores centenárias para que elas confessem carbono visual; e como é fantástico assistir ao parto da árvore: ao entrar em erupção, a musculada vagina celulósica soluça contracções avassaladoras repicadas pelos nós [até então secularmente contemplativos] narrando lendas imemoriais por meio de flashes onde se mesclam livremente seivas e sangue de outros tactos à laia de sucessão, com preservada nudez do futurismo infractor – é declaradamente secundária uma possível humilhação sofrida pela mais sofisticada máquina fotográfica que vai coleccionando ridículos cadáveres à força, estampas num entusiasmo ulceroso consentidas por milimétricos intervalos de putrefacção.



Dirão: «sopro lhe dá o vento» – passatempo para quem rói perguntas repletas de ácido sem que se denuncie casta plástica do aforismo ambulatório, nem se abafe a compleição do polímero sujeito a polimento cerebral que lhe confere momentânea suculência.
Poluída e vibrátil se espera a atabalhoada herança que em ricochete premiará a ascensão do osso filosofal, a manifestar-se num ritmo celebrativo do sempre imprevisível mosaico das mil e uma quimeras; daí o brilho pressuposto, a nitidez vertebral de novíssima estética recém-nascida por isolada retina.



Dou pequena mordidela na névoa placentária dum souto; ressurgem folhas secas, desdentadas palram novamente pelos cotovelos um tanto ao quanto calejados de escalarem formigueiros fonéticos que o vento atraiçoa fortuitamente, numa espécie de amnésia ou sulco germinativo.



Um choque térmico entre mosaicos paralelos e eu sob o seio gotejante a fabricar compassos de reformulação da esfera a recolocar num ímpeto frívolo [escorregam mãos no metal ensaboado] tal súmula do pseudosonho.



Não consinto que se dispa impune esse caracol tectónico no intuito subversivo de forjar amarelos [escusa de selectiva cegueira] enquanto se armam ninhos na protuberância mais alta do cérebro.



É preciso vasculhar o estrume com alguma frequência; encontram-se por vezes laranjas de casca luzidia, para não falar das asas brancas no meio dessa tralha, quando voar é o único remédio depois da chuva amoniacal desfigurar benzidos pertences fúteis, aliviando repentinamente os ombros dalgum ritmo cardíaco por osmose emprestado a esses objectos cuja luz me ofusca e contrai compactação ao sumo, estádio favorável a futuros voos.
A intrusão de novo recurso melódico a desenfrear os nervos, representado pelo sapateado de martelos cuspidos directamente de egrégios collants nalgum pedestal elitista, ressalva inevitável esterilidade da marcha até ao alvo, continente na iminência de explosão hormonal.



Esta endémica e voraz indústria química, timidamente embrulhada com a pele possível, vitaliza parte do degredo institucional de reinserção pela prática do comércio dito clandestino ou tráfico negro, e assinala berços aos herdeiros num baralho de dentes que à diurna luz falsamente se contempla.



Fio a fio alinho de comoção o cravo exótico, se me é dado o sucedâneo mover do pó a cumprir-se como aragem acústica numa cumplicidade de multíplices ecos, sem denunciar excentricidade nem transplantar agreste canela que incensa permanentemente as pautas, com o privilégio de ver mantido respectivo aroma mesmo selando a boca e sentir remorso nesse fechar inato ao ponto de o julgar prepúcio recapitulativo – ainda secreto esse flavour trauteado na solidão com a abrupta cadência do mármore.



Esbracejar novamente no sumo e senti-lo cromatina, convicto de que o movimento exuma a demência paúlica numa tentativa de sufragar o invisível epistolário a conjugar-se num corpo de mulher, será amputar uma parcela do código para refazê-lo com a ignorância primitiva, obrigando o cabelo da fêmea consubstanciada a proporcionar fita métrica para análise sistemática de inúmeros cometas incrustados nos corpos.


Porfírio Al Brandão
Setembro de 2008

2 comentários:

isabel mendes ferreira disse...

levei-te para o Piano.


beijo.te.

gabriela rocha martins disse...

ainda sem palavras

sem palavras ....

curvo.me



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um beijo