domingo, 28 de setembro de 2008

Narsad Suite

à Natércia Oliveira Cidra
à Sandra Santos Martins

[DIA D]
que praia miraculosa meu coração não vê?
aonde a foz da estepe pressentida pelo chocalho?
que vento ousa esculpir minhas sete formas?

Assim murmura Narsad, na mais alta duna do deserto. Hoje é o primeiro dia vindo da cinza. Narsad dispersa as mãos no parto do sol, desejando que este sangre como a mãe dos povos e, lhe traga em fuga a aurora dada a ver numa boca, onde se entrançam milhentas linhas por remorso. O deserto é o seu país. Roça o ventre na areia. Perdeu algures a cartilha da serpente mais sábia, esconde o rosto com o lenço mais velho. Narsad, princesa de pé descalço num devaneio oriental, à mercê das agulhas dum marfim leitoso que, em rigoroso voo orquestram os lábios, ensinando-lhes a dança inebriante do gosto como plantam pólen no dorso do escorpião.
[MESES DE ENCANTAMENTO]
Eis que se alongam as noites – mede-as Narsad, braço a braço. As entranhas em absoluto desencontro. Sobram-lhe os pentes e os parentes. A lua mais perto – grande e azul encostada. Narsad em tremendo alvoroço no que olha enamorada, prevendo a seda que antecede a vontade do corpo. Passam os meses e mais lhe pesa o alimento; levado à boca não leveda o mesmo pão, embora se alastre a levedura como praga amena e insinuadora na redonda face da lua – onde o azul excede o desejo. Sempre presente o seu maior medo: ver apodrecer as uvas, colhidas no divertimento entregue ao lobo solitário e faminto, na sua ronda.


[CONFISSÃO]

Narsad assina em confissão cada rasgo na roupa que lhe esconde o ventre. Sente-se só – princesa sem umbigo. Chora uma mãe que nunca pôde ter tido, apesar de sempre viva uma memória de esperança a correr firme em cada veio da terra como útero abençoado que jurou amar. Ao luar deitada, mais próxima da adoptiva mãe, alisando-lhe curvilínea barriga, traça na areia repentino plano para cobiçar um umbigo nascido do seu sangue, e dar-lhe assim todo o amor que à terra pediu emprestado. As lágrimas cristalizam o esboço.
O império será erigido sobre as águas do Sado
– pensa –
O sangue planará à linha d’água
Narsad decide por fim abandonar o Palácio das Divindades Bastardas, sacudindo o luxo e a falsa protecção, dando início à sua verdadeira demanda.

[NARSAD]
Pondo a galope o seu fiel Três-Áspides, velocíssimo cavalo lusitano, Narsad lança ao céu a Nona-Graça, águia de penugem dourada que lhe coube de herança na morte do seu tutor; e sob o eflúvio mágico dos sete véus que em branco milagre brincam nas barbas dum vendaval ameaçador, presta juramento:
Eu sou Narsad, princesa sem umbigo
filha secreta de Narciso
violentamente cuspida pelas águas do Sado
generosamente viva para erguer nova lei
e acenderei meu sangue
ver-me-ão parir sobre as mesmas águas
um filho que roubando beleza ao avô
calará meu choro com um sorriso



[PAIXÃO]
Em fuga, um coração alarmado na treva. Pétalas cortadas ao vento seco. Relincha ávido, Três-Áspides de olho rápido na finta à flecha envenenada. Inclinada, Narsad bebe o ar de poço profundo, perseguida pelo batalhão do Sado. Nona-Graça talha luz no epicentro do céu, sinais de penas ao Três-Áspides. Firme na rédea Narsad fere as mãos no couro, roça a cara no sangue brotado procurando na guerra a sua máscara. Entra a trindade no labirinto do lago gasoso, camuflando-se na vegetação aquática. Narsad enrodilha algas nas feridas e, despistado o batalhão, ela emerge aprumada no Três-Áspides. Dirigem-se para uma caverna indicada pela Nona-Graça. Noite escura, Narsad descobre uma rocha de estranha saliência, venera uma barriga de pedra, alumia-a bem com a sua tocha, olha-a de perto, encosta o ouvido e algo move-se dentro, pressente vida; então, abraça a rocha e esta fende deixando cair um jovem rapaz, Tahir encarcerado por feitiço pela bruxa-mãe dos Kimohjad, a vil pedido do irmão mais novo com fome de trono. Narsad e Tahir olham-se frente a frente colados pelo silêncio, cada um ouve bater contrário o seu coração e, confusos na matéria e no tempo, fundem-se com um beijo.

[PRECE]
Tahir debruçado, abrindo um longo lenço de renda branca, acalmando Narsad de amor pejada, com um beijo suave numa das coxas – assim se cumpre o juramento, sobre as águas do rio Sado. Celebra-se o desejado império numa cabana de vime presa ao leito do rio, ajudada pela força da terra que as raízes enlaçam. Três-Áspides à porta, Nona-Graça no vértice mais alto da cabana. Entre ferozes contracções, a dor escorrega nos olhos de Narsad. Ouve-se um berro – nasce Irina; e ao abrir os seus pequenos pulmões ao mundo, os peixes do rio sacodem luz na escuridão da água, deixando entrever no leito o sorriso de Narciso.
Porfírio Al Brandão
Maio de 2007
[Deste opúsculo, inspirado no álbum «Narsad Suite» de Luís Lapa [2006], foram feitos 77 exemplares numerados e assinados pelo autor]

2 comentários:

gabriela rocha martins disse...

sem palavras



rendo.me



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um beijo

isabel mendes ferreira disse...

assim como a Gab
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sim.


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oh menino Tu escreves de um modo que me arranha de prazer de ler.


bravo.